O governo Serra detona a educação paulista
Apeoesp, Adusp e DCE criticam as propostas eleitoreiras e as políticas mercantilistas adotadas nos vários níveis do ensino público.
Desde
o início de seu mandato, em 2007, o governador José Serra (PSDB) tem
recebido muitas críticas por suas políticas educacionais. Em seu
primeiro dia de mandato, publicou decretos que geraram greves e
ocupações por todo o Estado, encarou diversas outras paralisações e
manifestações contrárias feitas por professores, funcionários e
estudantes da rede pública, e o clima se agravou ainda mais com os
choques envolvendo Polícia
Militar e alunos da Universidade de São Paulo (USP), no último dia 9 de
junho. Mesmo terminadas as últimas greves nas universidades e de
professores do ensino básico, o governo ainda vê contestados seus
principais projetos e sua própria
concepção de educação.
Segundo
Maria Izabel Noronha, membro do Conselho Nacional de Educação e
presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do
Estado de São Paulo), “desde quando o PSDB começou a governar essa
tensão nunca foi resolvida”, uma
vez que o foco não é apenas do governo Serra, mas do projeto político
do partido, que não prioriza o investimento público e sim o enxugamento
da máquina estadual. Os tucanos encaram o investimento em saúde e
educação como “gastos” a serem contidos.
Caio
Matsui, estudante de Ciências Econômicas e Coordenador do DCE
(Diretório Central de Estudantes) da Unicamp, segue a mesma linha de
raciocínio: “Caracterizamos essa concepção de educação como neoliberal,
que privilegia o grande empresariado
em detrimento do ensino público”. Como exemplo, ele cita o fato de o
governo ter emprestado, em 2008, 4 bilhões de reais para “grandes
montadoras” automobilísticas, enquanto “para as universidades públicas
sempre falta dinheiro, o que acarreta um processo de privatização do conhecimento, de sua pesquisa”.
Universidades
Já
em seu primeiro dia de mandato, o governador José Serra publicou três
decretos, que instituíam a Secretaria de Ensino Superior e estabeleciam
diretrizes que, no entendimento de professores e estudantes, feriam a
autonomia das universidades decidirem suas próprias políticas
educacionais (falta de autonomia da qual reclamam também os professores
do ensino básico). A partir daí houve diversas manifestações
contrárias, sendo as de maior repercussão as ocupações das reitorias da
Unicamp e da
USP. A reitoria da USP permaneceu ocupada por 52 dias, e a imensa
projeção nacional do movimento obrigou o governo a reescrever os
decretos, através de um inédito “decreto revogatório”. Permanecia a
Secretaria, mas suas funções passavam a ser mais limitadas.
Desgastado,
o médico José Aristodemo Pinotti pediu demissão de seu cargo de
secretário do Ensino Superior em agosto de 2007, e foi substituído por
Carlos Vogt, poeta e ex-reitor da Unicamp, que naquele momento exercia
a presidência da Fapesp. Vogt
permance no cargo até hoje, e é um dos elaboradores da Univesp –
projeto de ensino superior à distância que pretende oferecer formação
superior para professores da rede pública e estudantes em geral,
utilizando-se de ferramentas como a Internet, a TV Cultura e o telefone (0800). (grifos do Diálogo Online)
Univesp
Segundo
dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP),
36% dos professores de ensino infantil e 27% do ensino fundamental não
têm formação superior. O site da Secretaria de Ensino Superior afirma
que o programa “não representa uma
nova instituição”, mas sim uma “ação cooperativa, inclusiva, que tem o
objetivo de articular iniciativas de sucesso para formação superior com
base em novas tecnologias de informação e de comunicação realizadas
pelas universidades estaduais paulistas”.
Em
texto difundido na Internet, Vogt afirma que os princípios da Univesp
são: “oferecimento de ensino público e de qualidade, equidade de
oportunidade para profissionais e jovens e amplo acesso ao ensino
superior, independente da camada social e da região”. Por enquanto as
propostas de cursos são: licenciaturas de pedagogia, ciências, física e
biologia; especialização em gestão escolar e gestão em governo
eletrônico e aperfeiçoamento em docência de física, química, matemática
e biologia. O ensino
seria de maneira “semi presencial”, ou seja, não totalmente feito à
distância, e o primeiro curso está previsto para começar em agosto, na
Unesp.
Juntamente
com a reivindicação dos funcionários por melhores salários e da
bandeira por maior democracia interna, um dos motivos da última greve
nas universidades estaduais foi exatamente a Univesp. O coletivo
“Universidade para quem?”, formado por estudantes de graduação e
pós-graduação da USP, caracteriza o projeto como “expansão de vagas sem
garantia de verbas”, e vê nele o intuito “de transformar as
universidades paulistas em formadoras de técnicos com título de
bacharel, atendendo apenas a demandas de mercado e a intuitos
eleitoreiros em uma antecipada e velada campanha à presidência do
Brasil”. A professora de Física Lighia Matsushigue, membro do Andes-SN
(Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior) e
da diretoria da Adusp (Associação de Docentes da USP), também vê nas
eleições uma das explicações para a Univesp: “O que o governo Serra
gostaria de implantar seria uma adicional expansão eleitoreira,
vultosa, a custo mínimo, que o catapultasse nas pesquisas eleitorais
para o embate nacional em 2010”.
Segundo
ela, o Andes acredita que “ensino à distância” não pode nem ser
qualificado como educação, e que não é “apropriado para a formação
inicial, em qualquer profissão, muito menos na de professor”. Esta
modalidade também não proporcionaria “a
formação humanista necessária para o crescimento da personalidade”, e
deveria no máximo ser proposta “em situações muito especiais”. Caio
Matsui afima que os estudantes não são contrários a qualquer uso da
tecnologia na educação: “Entendemos que para algumas circunstâncias
como cárcere privado, para moradores de regiões longínquas
e de difícil acesso, a educação à distância torna-se um importante
instrumento de democratização e de acesso ao ensino superior”. Ele
ressalta, no entanto, que não seria esse o caso da Univesp, que
pretende formar professores, não propõe expansão dos campi e não leva em conta o “tripé ensino, pesquisa e extensão”.
* O texto pode ser lido integralmente na edição de agosto.
Fonte: Revista Caros Amigos, por Julio Delmanto
* O texto pode ser lido integralmente na edição de agosto.
Fonte: Revista Caros Amigos, por Julio Delmanto








